Lastro cultural por Ignácio de Loyola Brandão
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| "As revistas informam sobre a vida
e o mundo, divertem e dão prazer.
Sua leitura permite formar
uma mentalidade aberta, disposta
a aceitar tudo, a receber tudo
e a fazer um filtro" |
Meu hábito de ler começou muito cedo. As primeiras revistas que li foram
O Tico-Tico e O Pequeno Missionário. A primeira foi uma publicação
famosa dedicada às crianças. Imperdível, eu lia por empréstimo de uma prima mais
abonada. Tico-Tico registrou em minha memória três personagens que jamais
esquecerei: Reco-Reco, Bolão e Azeitona. O Pequeno Missionário era uma
revista católica, dirigida ao público infantil e fortemente religiosa, mas divertida.
Minha mãe assinava também a Ave Maria, que tinha uma página infantil
produzida por uma mulher chamada Regina Melilo de Souza. Nunca esqueci esse nome.
Logo comecei a ler gibis e dos gibis passei para a Seleções do Reader's
Digest, que meu pai trazia mensalmente. Eu adorava a Seleções. Meu pai recebia
duas revistas que eu achava bastante curiosas, a Em Guarda e a Netuno.
Ambas eram dedicadas ao esforço de guerra e acho que quem as editava era o governo
dos Estados Unidos, em várias línguas. Eu gostava mesmo é de ver aviões e navios
em ação.
Durante minha juventude, lia A Cigarra, com reportagens e contos que
me encantavam. Outras leituras freqüentes eram O Cruzeiro, A Carioca
(dedicada ao rádio e ao teatro), Cinelândia e Filmelândia - guardei por
anos a coleção inteira destas duas. Aprendi a ver os bastidores do cinema por
meio delas.
Anos depois, chegava a fase da Manchete, que foi fundamental, porque
trazia os cronistas que marcaram o Brasil: Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo
Mendes Campos e Henrique Pongetti. Se sou hoje um cronista, devo à leitura desses
mestres. Esse hábito que tenho de ler revistas se explica pelo simples fato de
que elas me informam, me dão um lastro cultural. Esse costume é tão arraigado
em mim que sempre passo os olhos pelas semanais, ainda que já tenha visto quase
tudo pela TV e pelos jornais. As semanais ainda não conseguiram criar uma forma
própria, são a cozinha do dia-a-dia e quase todas tendenciosas.
Gosto de revistas de Literatura, Arte e também de ensaios. Não leio nenhuma
revista esportiva.
Outro costume que tenho é o de ler uma grande quantidade de revistas estrangeiras,
entre elas Magazine Litteraire, Positif, Cahiers du Cinema, Histoire, Lê Jardin
des Arts, Nouvel Observateur, The New Yorker.
As revistas têm uma importância tal em minha vida que me ajudaram, por exemplo,
a formar uma mentalidade aberta, disposta a aceitar tudo, a receber tudo e a fazer
um filtro. Elas me informaram sobre a vida e o mundo. Me divertiram, me deram
prazer. E ainda dão. Não sei se as revistas em seu formato atual têm futuro. E
me pergunto: qual seria esse formato? Não sei se as revistas serão em papel ou
digitais. De qualquer modo, vou achar uma pena se elas se acabarem.
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