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Juan Ocerin - Um revolucionário na pele de um Don Juan
Maria Célia Furtado

ER - Uma curiosidade... Comprou uma marca para não ser usada. Por quê?

Juan - Porque, na verdade, a intenção era colocar o jornal numa faixa intermediária, entre os populares e os jornais qualificados. Nós estudamos o mercado e a raia na qual o Diário Popular concorria, pelo lado do leitor, era a raia popular, que mesmo vendendo mais, como negócio, tinha um posicionamento pouco interessante. Assim, para atrair o mercado publicitário, que inexistia, ou era muito pequeno, tivemos de reposicioná- lo e colocá-lo num patamar um pouco acima. Isso sugeriu um novo projeto gráfico, uma mudança de nome. Enfim, uma série de mudanças.

ER - Antes de retomarmos para a Editora Globo, vamos falar um pouquinho do Juan pessoal. Quantos anos têm, quantas línguas fala?

Juan - Continuo solteiro. Tenho uma filha brasileira de um antigo namoro, que é o meu xodozinho. Ela se chama Raquel e tem 9 anos. Eu tenho 41. Nasci no país basco, falando basco em casa e obrigatoriamente espanhol na escola. Era a época ainda da ditadura do Franco. Então, era basco em casa e nas ruas era obrigatório falar espanhol. Depois, morei um tempo na França e tive de arranhar muitas línguas. Continuo arranhando o francês, o inglês, alemão, que aprendi quando morei na Alemanha, e o português, que eu tenho de arranhar de uma maneira melhor agora. Mas foram todas apreendidas na marra. Tipo: "você tem de ir lá e em três meses se virar." Mas as que realmente domino são o espanhol e o basco. E o português, é claro. Depois de oito anos de Brasil, eu consigo pensar em português, mesmo que ainda tenha certa dificuldade com a pronúncia.

Fotos: Lucíola OkamotoER - Posso fazer uma brincadeirinha? Don Juan, basco, solteiro, como é essa história?

Juan - Ah não, essa história. (risos). Eu tenho uma vida mais simples que isso. Só trabalho. Eu sou uma pessoa muito voltada ao trabalho e à minha filha... ER - Às mulheres... Juan - Às mulheres também, mas eu sou uma pessoa de ego controlado e pouca vaidade. Gosto muito de encontrar meus amigos de fora do trabalho. Gosto de ter duas ou três horas por dia reservada para fazer esporte, ler um livro. Algo que não tenha nada a ver com a vida profissional. A verdade é que atualmente não tenho mais muito tempo. Quando podia, ia à Europa, onde tenho muitos amigos. Infelizmente, a carga de trabalho aqui me impede de fazer isso. Dedico o tempo que posso à minha filha.

ER - Ela mora com você?

Juan - Ela mora no Rio. Todo fim de semana, na sexta-feira, vou buscá-la no colégio. No final do dia, eu fico fazendo dever de casa.

"Assim como 'não peçam dinheiro', minha outra missão é elevar a editora ao padrão Globo de Qualidade. Sabemos que levará um tempo, mas queremos que esse trabalho seja feito com recursos internos. Considero que estamos há um terço desse caminho"

ER - Que delícia. Bom, então, vamos à editora? Como é que começou a sua história na Editora Globo?

Juan - Em 1999 estava no Diário de São Paulo. De um dia para o outro disseram: "Juan, você tem uma noite para pensar. Amanhã gostaríamos que você assumisse a Editora Globo, que por várias razões não tem mais diretoria". Eu conhecia a editora porque participava do conselho, mas era um conhecimento bastante superficial. A recomendação era: "Queremos que você coloque a empresa em primeiro lugar. Que ela viva de suas próprias pernas. Não peça um centavo. Sabemos que você vai conseguir". Em segundo lugar, me deram um relatório de consultoria que indicava que, do portfólio de 11 revistas, quatro eram deficitárias e mais duas talvez não teriam muito futuro. Teria um tempo para tentar ver até aonde conseguiríamos chegar. No final desse processo, conseguimos não pedir dinheiro. Ficamos por um tempo endividados, parcelamos, renegociamos as dívidas com os fornecedores e assim por diante. Nós fizemos três cortes, pois achei que um não seria suficiente. O terceiro, mais focado na revista Época, coincidiu com a vinda do Aluizio Falcão, no ano passado. Houve muita renegociação com insumos, fornecedores, etc. Acho que o resultado foi bom porque conseguimos não só não pedir dinheiro, mas continuamos mais confiantes do que nunca. Nenhuma revista foi fechada e hoje isso não está nem em pauta de discussão, o que nos dá muito orgulho.

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