Juan Ocerin - Um revolucionário na pele de um Don Juan Maria Célia Furtado
ER - Deve ser por isso essa sua fama de lutador, de
salvador de empresa. Mania de recuperação, não é?
Juan - Não tenho toda essa pompa não. Aos 23 anos,
eu queria trabalhar numa consultoria, de preferência passar um tempo fora.
Fui trabalhar numa empresa norte-americana com base em Madri e, por esse
meu histórico, me colocaram lá num grupinho que chamavam de "resgate de
empresas". Eu obviamente não tinha experiência nenhuma, fora aquela na
empresa do meu pai e ainda era recém-formado. Fiquei lá até os 27 anos.
Éramos um pequeno grupo que trabalhava para as empresas mais variadas.
Desde o primeiro dia, o trabalho era ter de entender porque a empresa
estava em dificuldade. Montava-se então uma equipe mista com o cliente
para resolver os problemas. Por exemplo, chegava alguém e dizia: "as empresas
de geladeiras estão quebrando" e a gente saía procurando soluções. Foi
dessa época que surgiu para mim a noção de que, quando as empresas perdem
o compasso - sobretudo em imagem ou tecnologia de produto -, é muito mais
difícil de se recuperar. Quando o descompasso é relativo a problemas pontuais
de gestão, de má administração, é até mais fácil. Cortar custo é fácil.
Recuperar tecnologia, produto ou imagem é bem mais problemático.
Enfim, nesse período dos 23 aos 27 anos eu fui fazer um mestrado
na Insead (Fontainebleau - França). Voltei para a área de consultoria
por intermédio de uma outra empresa, a norte-americana Booz Allen. Com
ela, vim ao Brasil em 1992. Tínhamos um cliente de mídia, a RBS e, por
ter passado alguns meses numa empresa do grupo Prisa na Espanha, fui escalado
para atendê-la. Assim foram os meus primeiros quatro meses no Brasil.
Entre o final de 1992 até meados de 93, passei a atender a Globo. Nessa
época dirigi um projeto do jornal O Globo e outros clientes brasileiros
de diferentes setores.
| "De um dia para o
outro disseram: 'Juan, você tem uma noite para pensar. Amanhã, gostaríamos
que você assumisse a Editora Globo, que por várias razões não tem
mais diretoria'" |
ER - E como a Globo apareceu na sua vida?
Juan - Foi em um projeto que fizemos para o Infoglobo,
que é o setor da empresa que cuida dos jornais. Depois se estendeu para
a TV e para a área de rádio. Foi lá que eu conheci o João Roberto Marinho.
ER
- E você ainda trabalhava na Booz Allen?
Juan - Trabalhava. Meu relacionamento era tanto
com o João Roberto quanto com outros executivos. Nesse momento,
fui convidado para ir trabalhar na TV Globo, com a dona Marluce. Pedi
um mês de férias e fui à Espanha. Mas acabei não voltando: fui trabalhar
na Alemanha numa montadora de carros. Passei de abril de 1993
até 1996 na Alemanha, onde novamente me colocaram numa área de reestruturação
de empresas com problemas. Uma das empresas era brasileira, a Autolatina
(formada pela associação entre a Volkswagen e a Ford do Brasil). Tínhamos
de fazer a separação das empresas e reerguer fábricas, etc. Com isso,
assumi a vice-presidência financeira da Volkswagen para a América do Sul,
basicamente Brasil e Argentina. Fiquei no cargo até 1999, quando fui convidado
para ir para O Globo, retomando as conversas com as pessoas de 1992 e
retornando ao mercado editorial.
ER - Você comprou o Diário Popular? Como é que foi essa
história?
Juan - Entrei na Globo como executivo e lidava com
a área de jornais. Na época, havia cinco jornais. O quarto era o Valor
Econômico, editado em parceria com a Folha de São Paulo. O quinto surgiu
da aquisição do antigo Diário Popular, que transformamos em Diário de
São Paulo. Assumi a direção do jornal e fiquei um ano e meio lá, durante
uma época duríssima. O atentado às torres do World Trade Center foi 15
dias antes do lançamento do jornal. Assim, todas as previsões tiveram
de ser refeitas pois a mídia toda sofreu muito naquele período. Era o
final de 2001. Logo, 2002 foi nefasto. Tivemos de fazer melhorias de qualidade
urgentíssimas e, ao mesmo tempo, cortes de custos que não estavam previstos.
No meio do caminho, tivemos de fazer as melhorias com bem menos recursos.
Foi uma travessia extremamente difícil.
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