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Joana é um gênio
Maria Célia Furtado

Até para fechar a empresa precisávamos de um valor muito grande. Eu estava grávida do meu primeiro filho, tinha muita energia e propus ao senhor Sheng transferir toda a empresa para mim, com toda a responsabilidade pelo que desse e viesse. Eu o pagaria uma parte em dinheiro e uma parte em páginas de publicidade, com um desconto de 50%. Assim, fiquei com a Corpo a Corpo. Já tinha descoberto a saída para ela, sabia que a empresa ia dar certo. Também aprendi que tenho de pensar pela minha cabeça. Essa liberdade foi fundamental para o crescimento da Símbolo.

Isso foi em dezembro de 1992. Meu filho nasceu no final de novembro e trouxe uma energia enorme. Então, comecei tudo de novo, com uma equipe de menos de dez pessoas, superenxuta. O Beto, meu sócio atual, apostou no projeto, reduziu o salário e com a nova equipe, recomeçamos a Símbolo. Tudo de novo, numa casinha pequenininha na alameda Sarutaiá, uma casa que toda vez que passo lá eu me emociono.

ER - Ai você lançou a Tititi?

Joana - Não, em 1994, lancei a Atrevida. A Tititi foi em 1998. Foi um sucesso estrondoso e ainda é. Mas, em 92, eu praticamente não tinha sócio, era um percentual muito pequeno que pertencia a minha família, eu tinha 99% e 1% era da minha mãe. Aí fomos tocando a empresa para começar o crescimento. Estabilizamos a Corpo a Corpo, que também se tornou uma revista focada na leitora, uma publicação que oferecia qualidade de vida, uma revista que oferecia todos os aspectos, com mais serviço, com mais conteúdo, porque eu acho que a especialidade da Símbolo é serviço. Nós somos fortes em servir e oferecer serviços. Isso torna as revistas extremamente úteis.

ER - Joana, o lançamento da revista Raça foi um impacto no ramo editorial, lembro muito bem do lançamento, deu até matéria internacional... E hoje como é que está a Raça?

Joana - Esse foi um ano de muita alegria no meu coração. A Raça foi lançada em setembro de 1996 e se tornou um tremendo sucesso. Foi muito importante em termos de idéia, em termos de conceito. Nós lançamos a revista e ela se superou em todos os sentidos: teve reimpressão na número 1. Foi maravilhoso, pois mostrou o negro no papel de consumidor. Não era uma questão política, ideológica, não atrelada ao racismo, ao preconceito, porque eu deixei muito claro, se fosse para fazer uma revista contra o branco eu não poderia fazer, porque a minha editora não é só de negros, é uma revista a favor dos negros, mas não é contra ninguém. Isso ficou muito claro e é assim até hoje. A Raça era uma revista muito bonita visualmente e os negros apareceram muito bonitos e bem fotografados. Um fato muito importante para a integração do negro na mídia, na sociedade de consumo. Com todos os problemas que vivemos, a Raça mostrou o negro como participante do mercado consumidor. A partir disso, as outras revistas começaram a colocar negros na capa, no editorial, as agências de publicidade começaram a usar o negro na mídia, no papel de consumidor. A Raça perdeu seu papel de pioneirismo e atualmente é mais formadora de opinião e de poder de consumo dos negros. Conseqüentemente, os números dela mudaram. Mas é muito importante você estar fazendo essa pergunta porque este ano é o ano que a Raça volta com toda a força, a partir de abril ela se tornou novamente mensal. Estou investindo na tiragem dela. Tive uma reunião recentemente com o Netinho. A marca Raça é independente na Símbolo.

Mikio Okamoto
ER - Como nasce uma revista na sua cabeça? Você sente o mercado, sente a força de determinado segmento? Como é que a coisa começa a brotar?

Joana - Mudou muito nestes últimos anos. Eu comecei aos 24 anos. A Símbolo vai fazer 18 anos e eu vou fazer 42. Mas é assim: Eu tenho várias idéias, elas estão no ar, todas, todas. Têm algumas "coincidências". Eu fiz o registro de marca de uma revista muito parecida com uma revista "gringa", um mês antes de ela ser lançada em outro país. Mas estava lançando a revista e, quando eu fui visitada por essa empresa internacional, eu mostrei o registro e falei: "Olha eu não vou comprar o seu lance, porque já registrei essa marca. Vou te mostrar a data para você ter certeza que é real." Então eu acredito que hoje as idéias estão no ar. Eu estudo muito o que a gente chama de inconsciente coletivo, que a base é jungiana e acredito que o inconsciente coletivo é um produto criador. Todas as idéias estão lá, muitas idéias são percebidas ao mesmo tempo. Idéia é um bem precioso, mas ela só tem valor quando bem executada. Na verdade, cada vez mais as idéias estão disponíveis a todos. Com o crescimento da internet, você pode ter uma idéia aqui e simultaneamente outra pessoa tem a mesma idéia do outro lado do mundo. A comunicação é superveloz. Então eu tenho essa coisa de estar trabalhando sempre idéias. A Símbolo tem várias idéias que já estão sendo lançadas, outras estão sendo guardadas porque estão antes do tempo e o mercado não está preparado. É muito investimento para você ter um retorno pequeno e eu não vou sacrificar a minha empresa só para ver que sou pioneira em idéias e tudo mais. Este é o caso da revista Bárbara, que volta este ano, maravilhosa, glamourosa. Foi lançada em 1995, não existiam tantos produtos voltados para mulher de 40 e hoje as mulheres que tinham 35 na época já têm 40. As que estavam com 30 já estão com 35 e já estão maduras. Então esse relançamento da Bárbara é maravilhoso. Infelizmente, tive de desativar esta marca por um tempo, mas hoje eu acho que o mercado já está maduro. Todas as campanhas internacionais e nacionais mostram o quanto a mulher de 40 está no topo, não é mais a melhor fase da sua vida, ela está no ápice, eu tenho 42 anos e estou longe de me achar uma velha, mas antigamente não. O mercado muda muito rápido, cada ano muda e nós temos algumas outras marcas que eu sei que temos de esperar e outras que estão maduras para serem lançadas.

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