Grande guerreiro do negócio das revistas. Ele é o Super Angelo Maria Célia Furtado entrevista Angelo Rossi
ER - Como nasce para você um título, como é o cheiro
do título, a busca do segmento, como vai tomando forma na sua cabeça?
AR - Acho que não tem uma maneira sólida de nascer um título.
Normalmente, ele vem de repente. Nada é estudado. Eu não conheço nenhum
título estudado que deu certo. Olha, a Veja correu esse risco. Acabou
dando certo, mas demorou. Fora ela, não lembro de nenhum título muito
estudado, em nenhum segmento... Pelo menos, até agora, todos os títulos
que deram certo vieram de uma idéia de momento, de uma sensibilidade,
de uma oportunidade naquele momento. Não conheço títulos de sucesso que
nasceram por meio de pesquisas. Não sei se você conhece, mas eu não.
ER - Como pintou a idéia da revista Ana Maria?
AR - A Ana Maria nasceu da seguinte idéia: num país como o Brasil,
onde 70% da população não sabe realmente ler, não tem um segmento de revista
"popular". A princípio a idéia era lançar a R$ 1,00 e deu certo logo no
início, foi um sucesso. A fórmula não é muito complicada, nós nos inspiramos
na revista Maria, portuguesa e deu certo. Uma revista bem-feita, interessante
e decente por um preço baixo.
| "Acho que não tem uma maneira sólida de nascer um título. Normalmente,
ele vem de repente. Nada é estudado. Eu não conheço nenhum título estudado
que deu certo. Olha, a Veja correu esse risco. Acabou dando certo, mas
demorou. Fora ela, não lembro de nenhum título muito estudado, em nenhum
segmento... Pelo menos, até agora, todos os títulos que deram certo vieram
de uma idéia de momento, de uma sensibilidade, de uma oportunidade naquele
momento. Eu não conheço títulos de sucesso que nasceram por meio de pesquisas.
Não sei se você conhece, mas eu não" |
ER - E agora uma Relais, uma revista para milionários,
como é que ela se enquadra?
AR - Acho que a Peixes está especializada nisso, em venda de revistas
segmentadas e especializadas para um público totalmente qualificado. Se
ela tem uma vocação, a vocação é essa: fazer revistas especializadas para
um público qualificado. Todas elas, sem exceção, são especializadas. Todas
as revistas da Peixes são qualificadas. Talvez nem todas atinjam um público
AA, como no caso da Fluir, mas são totalmente especializadas e qualificadas.
ER - Não pretende mais lançar um título popular?
AR - Quem sabe, não dá para dizer nunca mais....
ER - Você é muito respeitado no mercado, o que diria
para um editor que esta começando?
AR - Para pensar... (risos), para pensar muito, para não ir tanto
no entusiasmo, o mercado mudou demais. Acho que as oportunidades vão existir
sempre, mas o mercado como o de 20 anos atrás não tem parecido. Você que
tem essa experiência, então, sabe do que estou falando. As oportunidades
existem, quem quer entrar nesse mercado, infelizmente, tem de estudar
um pouquinho (risos). Ao contrário da nossa época, tem de analisar pelo
menos se o segmento agüenta, porque em princípio todos os segmentos estão
em aberto. Precisa analisar se tem mercado publicitário, quando não tiver
circulação. Se tem mercado publicitário, precisa ver qual é a circulação
mínima necessária para poder alcançar esse mercado. Hoje, tem revistas
customizadas, está uma loucura... Então, hoje, os títulos da Peixes, no
mercado de segmentadas, estão cada vez mais fáceis de entender como um
alvo muito bem definido.
ER - E a equação publicidade/banca? Na segmentada, fica
até um pouco mais fácil, mas como você vê essa saída?
AR - Acho que a segmentada não é mais publicidade/banca, e sim
publicidade/ assinaturas. Hoje, para você lançar uma revista na banca
precisa fazer muita conta. A cada três publicações que você colocar na
banca, você vende uma. No mercado popular, você coloca 50.000, 100.000
nas bancas. Mas, no caso das segmentadas, para vender 15.000 exemplares,
você tem de colocar 45.000 nas bancas. Então, não tem cálculo que resista.
Acho que essa equação publicidade/ banca está mudando para mailing, assinaturas
(ou algo parecido)/publicidade. Banca sempre vai ter, mas não tem a importância
que tinha antigamente. Porque, hoje, com qualquer coisa, você vai precisar
de um canal alternativo. A banca isoladamente não é mais o canal ideal.
Antigamente, lançava-se uma revista ao público e ela acontecia.
ER - E essa coisa da segmentada estar licenciando marcas,
organizando feiras, eventos para encontrar fontes alternativas de faturamento
AR - É para poder conceituar a marca cada vez mais. A própria
Peixes está licenciando a Fluir e a Gula. Entre diversas coisas temos
os cadernos escolares Fluir e por aí vai. Acho que é a valorização da
marca.
ER - Conte um grande sucesso e um grande fracasso.
AR - Um grande sucesso... Acho que o maior sucesso da minha vida
foi a montagem da Azul e a transformação da Contigo. Nós saímos praticamente
de uma revista decapitada em meados dos anos 80, que discutia novela com
um mercado totalmente démodé e passou a ser uma revista que discutia novela
e fofoca. Chegou a vender 350.000 exemplares por semana. Esse, sem dúvida,
foi um dos meus maiores sucessos! Foi uma associação que eu fiz com o
SBT, que veiculava todas as semanas a revista e tinha participações nas
vendas. Outro grande sucesso foi o lançamento da Ana Maria, um tremendo
sucesso. Temos diversas publicações que estão se tornando sucessos.
ER - E o maior fracasso?
AR - O maior fracasso foi na Azul, quando tentei lançar a revista
feminina Estilo. Eu tive coragem de lançar e após nove números, fechar.
Acho que a coisa mais difícil para um editor é criar uma revista e depois
parar. Eu tive essa coragem. Acho que tive inspiração e uma sorte muito
boa de saber a hora de parar. A idéia era muito boa: fazer na forma de
uma IstoÉ feminina. Mas não deu certo.
ER - E por que deu errado?
AR - Porque o mercado feminino estava muito bem servido. O que
não estava servido quando lançamos a Ana Maria era o mercado popular.
Porém, o mercado feminino da classes média e alta já estava muito bem
servido. Olha quantas revistas a gente tem.
ER - Quer dizer nada, de revista para mulher?
AR - Para classe popular, não, porque o popular está ligado à
história do malfeito, mas não tem nada a ver. O popular é a facilidade
de acesso à compra daquele produto. Ou seja, se você fizer uma revista
que tem um preço acessível, fica muito mais fácil ter uma boa resposta
do que um produto para um público mais sofisticado.
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