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Domingos Alzugaray mostra as cartas
Roberto Muylaerte entrevista Domingo Alzugaray

ER - No Brasil são três exemplares de revista per capita.

DA - Mas isso não vale, são 10 exemplares per capita dos 60 milhões que são leitores de revista. Tem de dividir pelo mercado que existe...

ER - Situação das editoras em geral, como segmento de negócios: o endividamento é característica deste negócio?

DA - Não. É característica do Brasil. O mercado brasileiro é tão instável, não tem uma regularidade. Você monta uma revista numa época propícia, baseado nas suas reais possibilidade de mercado. Quando o mercado retrai, você se endivida. Daí para a frente, a dívida começa a te comer pela perna, porque você paga os juros, entra o custo financeiro. Para não falar da dívida em moeda estrangeira - felizmente não é o meu caso -, que desvalorizou a 3 x 1.

ER - A partir daí, qual a sua visão da situação econômica do nosso mercado?

"A imprensa independente é aquela que dá lucro. Isso não é uma frase minha, mas de Katherine Graham, editora do Washington Post. Em seu livro, ela diz que se você não dá lucro, não é independente, depende dos outros, acabou..."

DA - Pelo tamanho do mercado brasileiro, se você está devendo US$ 10 milhões, pode dormir tranqüilo, porque dá para administrar, produzir para pagar. Numa editora dos Estados Unidos é uma dívida que não vale absolutamente nada, não pesa no desempenho da empresa. A mesma dívida numa editora da Bolívia, pelo tamanho do mercado, nunca você vai conseguir pagar. Acho que o Brasil se endividou além do tamanho de seu mercado. Meu cuidado, no caso, é que minhas dívidas sejam do tamanho do mercado brasileiro. Dívidas de outras empresas, maiores que a minha estão acima do tamanho atual do mercado. Mas se o Brasil deslancha, todo mundo vai poder pagar as dívidas. Mas se ele continuar assim meio devagar, fica difícil.

ER - As verbas de publicidade agora vêm caindo: isso constitui uma tendência?

DA - As revistas continuam mantendo e até subiram sua participação no mercado, de 7 ou 8% para 10%. Estão no seu lugar. Mas tem mais gente disputando o mesmo bolo publicitário. Até quatro ou cinco anos atrás éramos duas revistas semanais que pesavam no mercado: Veja e IstoÉ. Quando entrou Época, não houve aumento de verba. Dividiu-se por três, o que se dividia por dois, e acabou. Os anunciantes estão também procurando outras alternativas. Por isso, precisamos ficar atentos, buscar caminhos, promoções diferentes, não apenas procurar a página de publicidade.

ER - Assinatura, aparentemente não dá lucro, e no entanto uma das ambições das revistas é crescer em vendas de assinaturas...

DA - Assinatura no mínimo deve se pagar. Você aumenta sua circulação e recupera o custo da assinatura. Mas a saúde de um veículo de comunicação está no seu faturamento publicitário.

ER - Você depende muito mais de assinatura que de banca, não é?

DA - Sem dúvida. Banca é 10% ou 15% da receita de circulação. O resto são assinaturas, vendidas aqui dentro e por representantes nossos em todo o Brasil.

ER - Voltando ao início, lembro de ter visitado você e o Luís Carta nas salas da Brigadeiro Luiz Antonio, quando eu ainda trabalhava na Abril: essas visitas não pegavam muito bem, na época...

DA - Era pecado mortal, um gesto de rebeldia, insurreição...

ER - Até como reação a esse clima de disputa, naquela época você vislumbrava ser tão grande, ou até maior que a Abril. Considera seu objetivo atingido?

DA - Claro que não. Quando as pessoas falam da Editora Três como possível obra meritória que fiz, eu concordo, etcétara e tal, mas o que fiz foi muito menos do que tinha planejado fazer.

ER - Mas é bom lembrar que era uma geração sua contra duas deles...

DA - Sim, mas quando a Abril fez trinta anos, era maior do que nós somos hoje com essa mesma idade. Acontece também que peguei um País mais complicado. Os últimos vinte anos de Brasil foram uma parada absoluta e total. Nos anos 50, quando a Abril começou, era tempo de Juscelino Kubitchek, Brasília, expansão. Eles tiveram época mais favorável. Além de algumas iniciativas que criaram os alicerces para a grande empresa que a Abril se tornou depois, como os fascículos, mérito total e absoluto de Victor Civita.Quando ele veio com essa idéia, que na Itália estava vendendo bem, nós achamos que era uma barbaridade... Não daria certo no Brasil.

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