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Domingos Alzugaray mostra as cartas
Roberto Muylaerte entrevista Domingo Alzugaray

Mikio Okamoto
O prédio em que se situa a Editora Três, na Lapa de Baixo, em São Paulo, é uma construção industrial de grossas colunas de concreto, e fina alvenaria, de fins do século XIX, que já foi depósito da Estrada de Ferro Santos a Jundiaí e depois indústria siderúrgica, a Martins Ferreira. Lá estão onze mil m2 de editora, com espaço sobrando, sem contar o depósito, situado ao lado, de cinco mil m2.

"Onde você já viu um corredor de três metros de largura, por onde as pessoas se movimentam folgadamente entre as redações?", observa Domingo, enquanto caminhamos sobre um linóleo brilhante e limpo como chão de hospital, bem distantes um do outro, só para provar a tese espacial dele.

"Saí da Abril porque tinha um projeto pessoal. Mas a Abril sempre me considerou muito, deu condições de trabalho e sempre me pagou muito bem. Não tenho nenhuma reclamação a fazer dos tempos da Abril. Houve sim, depois de eu sair de lá, alguns conflitos, um pouco além do que se espera de uma simples concorrência."

A sala onde seria realizada a entrevista, no auge do verão de fevereiro, estava um bocado quente, contrastando com o ar condicionado do restante das instalações da Editora Três, perdão, Grupo Editorial Três, como consta do mais recente folheto promocional da empresa, no qual os números da casa impressionam: 30 milhões de exemplares de revistas impressos em 2002.

O dono do pedaço, Domingo Alzugaray, aparece no expediente de suas publicações apenas como editor responsável, cargo igual ao de sua mulher, Cátia Alzugaray, colaboradora de sempre, com quem é casado há 40 anos.

Por uma janela lateral da sala reservada à entrevista, vislumbro, atravessando a rua com o olhar, os passageiros dos trens de subúrbio da CBTU, na estação Lapa. Em seguida, regulo o foco para mais perto e dou de cara com os vitrais multicoloridos que contemplam todo o perímetro da sala, uma espécie de marca registrada do edifício de três andares.

A idéia surge rápida: vamos ver quais são as cores desses vitrais: de repente elas coincidem com as tintas usadas na impressão das revistas: magenta tem, ciano, também, amarelo, idem, o preto fica por conta da pintura das esquadrias, e o branco, claro, é a cor do papel.

Quase deu certo, não fora a existência de um supérfluo vitral verde-garrafa, que não faz parte da quadricromia.

Paciência, perdi a oportunidade de fazer uma correlação entre vitral e impressão. Teria sido ótima para usar na abertura da matéria.

No bate-papo preliminar, Domingo se revela um atento leitor do primeiro número de Em Revista, ao reclamar do fato de eu estar sem paletó e sem gravata, quando "na entrevista da edição anterior, com o Roberto Civita, você estava todo elegante, como comprovam as fotos..."

Redargüi que o calor estava muito forte. O anfitrião me explica, então, que naquela sala sem forro não é possível colocar ar condicionado, para que fiquem visíveis os caibros do telhado, em pinho de riga, com 120 anos de existência. Uma valiosa e rara madeira importada, imune à ação de cupins.

Pela necessidade de iniciar logo o trabalho, abstive-me de perguntar por que, então, ele não mandava raspar a camada de tinta marrom que cobre a estrutura do telhado, para desvelar a existência daquela madeira clara, cheia de veios elegantes, mais bonita ainda, se envernizada.

Ato contínuo, partimos para a entrevista, de mais de duas horas, com perguntas, respostas, réplicas e tréplicas, muitas.

Ao final, chegamos à conclusão de que, se eu tivesse ido apenas visitar e não entrevistar o Alzugaray, a conversa teria sido igualzinha, já que a gente gosta mesmo de falar é de... revistas.

Em Revista - Esta sala, onde estamos, a única não climatizada, me remete para o início da Editora 3, há mais de 30 anos, nas duas salas da avenida Brigadeiro Luiz Antônio, onde você afirmava que não teria ar condicionado em sua sala antes que todos os seus funcionários tivessem.

Domingo Alzugaray - Cumpri isso à risca. Me preocupo muito pelas condições de trabalho, que faz o profissional trabalhar melhor, mais estimulado, mas não pelo simples conforto.

ER - No início da Abril, a Argentina ainda era o grande modelo...

DA - A Argentina era a matriz da Abril, que começou em 1945/46, com César, irmão de Victor Civita, para fazer revistas de fotonovelas italianas (Mondadori) e publicações de Walt Disney, o Pato Donald etc. Foi ele quem convidou Victor, que morava em Nova Iorque, para fazer as mesmas revistas no Brasil. César era o sócio majoritário no Brasil, Victor minoritário. Só que, com o passar do tempo, os papéis foram se invertendo, pela necessidade que o César tinha de enviar dinheiro daqui para tapar buraco na Argentina.

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