Revistas, revistas e mais revistas As revistas foram os primeiros veículos do planeta a segmentar. Uma revista pode ser feita só para editores de revistas, ou só para fabricantes de botão. Então, a revista permite chegar no foco do interesse específico da pessoa, do leitor. Nenhum outro veículo faz isso. É a coisa mais importante do nosso metier.
Roberto Muylaerte entrevista Roberto Civita
O movimento é intenso no saguão do edifício Abril, na marginal do rio
Pinheiros, em São Paulo, aonde chego numa quinta-feira pela manhã, para
cumprir missão importante: entrevistar Roberto Civita, presidente e editor
da Editora Abril, para a primeira edição de Em Revista.
No elevador tento adivinhar, pelo jeitão das pessoas, em que revista
trabalha cada um que circula por ali. Cruzo fisionomias com publicações:
o pessoal que desce no 9o andar, de acordo com a placa dourada adornada
com a tradicional arvorezinha da empresa, trabalha em Playboy ou Capricho.
No 14o andar fica a turma dos guias, no 16o o grupo das femininas, enquanto
Veja é a revista do 19o. Somando todas as publicações que esse pessoal
consegue criar em um ano, dá mais ou menos 250 milhões de exemplares vendidos.
Cerca de metade de todas as revistas comercializadas em bancas ou por
assinatura no País, no mesmo período, fora as distribuídas. Direto do
19o ao 24o, chego à sala de Roberto Civita, onde se descortina uma vista
estonteante da zona sudoeste de São Paulo, da Cidade Universitária (USP)
ao Jockey Clube, e além.
Estamos a 118 metros de altura em relação à marginal e a 818 metros do
nível do mar, pouco menos que a altitude de Brasília.
Antes da entrevista acontece a seção de fotografias na sala ao lado.
Impressionado com a parafernália da equipe de fotógrafos, na opção química
ou digital, Roberto solicita que uma das fotos dele lhe seja enviada depois,
já que pelos inúmeros fotógrafos da casa, ele ainda não foi aquinhoado.
A propósito, conta que passou um vexame danado com um repórter de revista
do exterior, que lhe pediu uma boa foto, após entrevistá-lo, e acabou
levando a única pose disponível na ocasião: a do passaporte.
Em seguida, Roberto faz uma pergunta direta e surpreendente ao disciplinado
e atarefado titular da Mikio Okamoto Fotografias: se as revistas, como
são hoje, continuarão a existir daqui a 40 anos. Perplexo, o nipo-brasileiro
nada responde, mas fica no ar o excelente mote para a primeira pergunta
da nossa entrevista.
Em Revista - As revistas, como são hoje, continuarão
a existir daqui a 40 anos?
Roberto Civita - Vai sempre haver revistas. É possível
que não sejam impressas. Nesse caso, deixaríamos de derrubar e triturar
árvores na Finlândia para transformá- las em papel, carregá-las até aqui,
sujálas de tinta e transportá-las por até cinco mil quilômetros. Mas que
haverá revista, haverá! Depende só da evolução da superfície disponível
eletronicamente para leitura: da qualidade dela, da facilidade de seu
uso, de sua portabilidade e também de sua "rasgabilidade".
O leitor vai ter o equivalente a uma revista de hoje, mas eletrônica:
tão portátil, tão fácil, tão gostosa de ter na mão, tão fácil de levar
para o banheiro, praia, para onde for, como acontece com as revistas hoje.
Mas nós ainda estamos muito longe de ter essa superfície disponível.
ER - Hoje todo mundo imprime o texto do computador para
ler melhor...
RC - É que a tela do computador não é gostosa de
usar. Você não consegue levá-la para ler na cama nem no banheiro.
ER - Quanto tempo levará para existir esse sucedâneo
da revista em superfície eletrônica?
RC - Perguntei isso para o Bill Gates. Ele disse
dez anos. Mas se ele próprio disse dez, eu calculo vinte ou trinta. Temos
uma reverência de mais de 500 anos pela palavra escrita, impressa: as
leis, os Mandamentos, a Bíblia, nada vira oficial, verdadeiro, comprovado
cientificamente se não estiver escrito e impresso. Você já pegou na mão
um livro impresso há 400 ou 500 anos?
ER - Emociona?
RC - Sim, emociona! Está lá, enquanto
eletronicamente você não sabe se
o texto vai permanecer lá nem sabe se é o mesmo original.
Tudo porque
ainda não há confiabilidade. Talvez daqui a um século
vão achar que essa
nossa conversa é meio estranha. Mas eles vão ter de lê-la
no papel (risos).
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